Cabeça de cuia - A opção inteligente

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Publicado em 18/11/2007 às 09h41

Nas favelas de Brasília, sotaque é nordestino

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Fernando Dantas conta no O Estado de São Paulo como as famílias pobres, principalmente do Nordeste, chegam a Brasília em busca de oportunidades

Na favela Estrutural, no Distrito Federal, a caminho da cidade-satélite de Taguatinga, Oswaldina Neris da Silva, de 36 anos, vive com seus oito filhos. Somando os R$ 130 que recebe do Bolsa Família, do governo federal, ao benefício de Renda Minha do governo do DF, mais um salário mínimo de pensão do seu falecido marido (que trabalhava num depósito de caminhões), a família de Oswaldina tem uma renda per capita mensal de R$ 57 - o que a classifica no grupo de indigentes por qualquer linha de pobreza utilizada no Brasil.

"Tem mês que dá, tem mês que não, e se eu compro comida, falta roupa", ela diz. Há 17 anos, Oswaldina, que só estudou até a segunda série e se considera analfabeta, veio de Itaueira, no Piauí, para Brasília, acompanhada do marido Raimundo Nonato e de uma filha recém-nascida. Ela diz que, apesar da situação difícil em Brasília, a família está melhor do que no Piauí: "Lá, muitas vezes nem comida tinha", lembra.

Oswaldina é um exemplo da legião de migrantes pobres que veio para Brasília, atraída pelo status e pelas oportunidades oferecidas pela capital do País. Mais recentemente, a política de oferta de lotes, atribuída principalmente ao ex-governador do DF Joaquim Roriz, intensificou essa corrente migratória.

Também morando na Estrutural, Geni de Matos Barbosa Sousa, de 40 anos, veio da Bahia com 14 anos, junto como o marido (que na época tinha 40). Separada, hoje ela mora com os três mais jovens entre os sete filhos que teve. Entre benefícios do Bolsa Família, do Minha Renda e a remuneração por cuidar de uma criança, Geni consegue tirar R$ 392 por mês.

Na Estrutural, que tem cerca de 20 mil habitantes, ela está na minoria dos que vivem em barraco de tapume, já que a maioria das casas é de tijolo. Não sobra dinheiro nem para o básico. "Já passei aperto para comprar comida e é muito difícil comprar roupa?, ela relata. Como o ex-marido, ?que foi embora para Pernambuco", Geni é analfabeta.

A vida difícil e a carência educacional dos habitantes da favela Estrutural contrastam com o padrão de moradores de Brasília como Júlio Linhares, 46 anos, que é secretário da Comissão de Educação, Cultura, Ciência e Esportes do Senado Federal. Linhares é um típico exemplo de trabalhador com carreira bem sucedida no setor público da capital federal.

Catarinense, veio para Brasília com dez anos de idade, em 1971. Depois de estudar Economia e Direito, acabou se formando em Ciência Política, e ingressou no Senado há 23 anos, onde passou por diversos cargos até chegar a praticamente ao topo da carreira. Ele prefere manter a discrição sobre quanto ganha, mas posições como a dele costumam ter salários acima de R$ 15 mil.

O ritmo de trabalho de Linhares é intenso, já que as funções da Comissão são múltiplas, lidando com a formulação de toda a legislação daqueles setores e com sessões deliberativas, audiências públicas, fiscalização das ações do governo, diligências, requerimentos de informação etc. Apesar de ser um cargo de confiança, ele se mantém nessa função durante o mandato de oito presidentes sucessivos. O atual é o senador Cristóvam Buarque.

Linhares, que é contra a estabilidade do funcionalismo público, lamenta a imagem de elite privilegiada que muitos têm dos servidores do Legislativo e Judiciário. "As comissões trabalham o ano inteiro, alimentando todo o funcionamento do Senado", explica.

Não há dúvida de que as posições na alta burocracia do funcionalismo em Brasília estão se tornando cada vez mais exigentes em termos de formação, o que tende a aumentar o fosso entre a classe média alta do Plano Piloto e dos Lagos Norte e Sul, e os pobres das cidades-satélites (onde também há áreas de classe média). A própria dinâmica de admissão por concursos públicos, e a fortíssima competição pelos altos salários oferecidos, vai tornando o ingresso na elite do funcionalismo uma tarefa cada vez mais difícil.

No caso de Lia de Castro Silva, de 36 anos, a recente aprovação no concurso para analista de controle externo do Tribunal de Contas da União (TCU) significa que ela vai quadruplicar o seu salário líquido atual, de R$ 2 mil, na Caixa Econômica Federal. Formada em Letras, ela decidiu, em 2005, tentar entrar no TCU. Para isso, fez diversos cursinhos e estudou com afinco matérias como direito nacional, direito administrativo, administração financeira e orçamentária, administração pública, português e inglês.

Agora, juntando o seu novo salário com o do marido, que também é funcionário público e ganha cerca de R$ 10 mil, ela pretende reformar a casa num condomínio no Lago Sul, onde o casal vive com os três filhos.

Plenamente satisfeita com a qualidade de vida da sua família em Brasília, Lia reconhece o fosso social da cidade. "Nós temos um grupo de amigos muito bom, há muita gente com nosso padrão e as nossas possibilidades, mas é importante mostrar para os nossos filhos que existe também o outro lado, porque em Brasília as diferentes realidades sociais são muito separadas, muito segregadas."
Fonte: Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

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