Cabeça de cuia - A opção inteligente

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Publicado em 11/02/2007 às 11h37

Antes de ficar rico, Renê Sena vivia de favor

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Reportagem de Mário Magalhaes para a edição deste domingo, (11) da folha de São Paulo, conta a historia de Rene Sena, o vencedor de R$ 54 milhões na Mega-Sena assassinado no mês passado. Ele havia sido lavrador, açougueiro e florista

Confira a reportagem Completa:

O lavrador Renê Senna parecia tatear o fundo do poço no começo de 2002, ano em que completaria meio século de vida. Morava de favor na casa alugada pela irmã Ângela no Boqueirão, localidade de Rio Bonito (RJ), a pouco mais de 70 km do Rio de Janeiro.

Renê, Ângela e os três filhos dela sobreviviam do benefício de aposentado do nonagenário Estelito Senna. O ancião recebia também pensão de viúvo. No total, lembra a caçula Ângela, dois salários mínimos.

Ela engordou o orçamento trabalhando como empregada doméstica, mas largou o serviço para cuidar do pai provedor. Cego, senil e insone, Estelito comia com as mãos.

Renê não contribuía com um só centavo. A ferida no dedão do seu pé esquerdo acumulara tamanha sujeira que bichos a encobriam. Ele não desconfiava que o diabetes sabotava a cicatrização nem sabia que raio de doença era essa.

Às 7h já não o encontravam. A irmã o flagrava no bar para o desjejum só de cachaça. O tio virou diversão dos sobrinhos, que trocavam por água a aguardente das garrafas. "Vou pegar os filhos da mãe", era a reação que a família não esquece.

Como o poço era mais fundo, os dias no Boqueirão foram recordações amenas nos três anos seguintes, quando Renê Senna já estava longe de lá. As duas pernas foram consumidas pedaço por pedaço até a amputação completa.

Sua sorte mudou ao apostar R$ 1,50 nas dezenas 03, 21, 25, 37, 54 e 58 em julho de 2005. Faturou sozinho os R$ 51,9 milhões da Mega-Sena acumulada-corrigidos, R$ 54 milhões.

Por um ano e meio conheceu a riqueza -material. Teve fazenda de R$ 9 milhões e mulher loira e formosa. O sonho acabou em 7 de janeiro, quando um pistoleiro descarregou a pistola calibre 380 no senhor sem pernas que bebericava cerveja em um botequim.

A Justiça mandou prender a viúva Adriana Almeida, 29, e outras cinco pessoas. A polícia a aponta como suspeita de armar a morte do marido, de olho na herança, e investiga a breve era de bonança, intriga e cobiça em torno do milionário.

Antes Renê fora um brasileiro como tantos. "Trabalhava de dia para ter o que comer à noite", diz o amigo Paulo Corrêa de Castro. É essa "história comum" que a Folha conta hoje.

Na roça
Renê nasceu numa casa de estuque em Tomascar, recanto rural cortado por um rio que divide os municípios de Tanguá e Rio Bonito. Nela se amontoavam em três quartos os pais, roceiros analfabetos, e os 11 filhos. O futuro fazendeiro, dono de quase mil cabeças de gado, na infância montava burro para buscar e distribuir comida ao lado do pai tropeiro.

O verde exuberante emoldurava o cenário de pobreza. Renê freqüentou a escola, aprendeu a ler, mas os pais o queriam na lida. Ele fugia para a cachoeira do rio Tomascar. Logo abandonou as aulas.
Com 11 anos seu tempo era todo para a lavoura. Plantava aipim, milho, quiabo, maxixe e laranja, o que o livrou da fome. Acordava às 6h, pegava a enxada uma hora depois, largava às 17h e dormia às 21h.

Foi assim até a vida adulta. Só partiu depois dos 30 anos. Seu horizonte não ia além das montanhas vizinhas -Tomascar é um vale.
Nunca semeou em propriedade da família, que não tinha nem um quintal; só para os outros. Como era bom no manejo do tambor, uma peça para torrar a farinha, engenhos o contratavam. Desossou boi em açougue.

Na juventude, sem eletricidade, não viu TV. Bom defensor nas peladas, torcia pelo Fluminense. Seus olhos verdes faziam algum sucesso no forró, mas os contemporâneos coincidem: não era um sedutor. Conforme a irmã Jucimar, a primeira mulher de Renê, Malvina, foi também a primeira namorada.

Rotina
A existência corria tão devagar que o companheiro de roça Paulo Corrêa de Castro acha agitado o cemitério onde hoje é coveiro, com menos de dois enterros por mês. Finda a labuta, a rotina deles se repetia: temperavam com caninha a prosa do entardecer.

O alcoolismo corroeu o casamento de Renê e Malvina, repetem mais de dez testemunhas. A união fez com que ele rompesse o cordão umbilical com sua terra. Uma floricultura de Niterói, famosa pelas orquídeas, o empregou.

O casal teve a filha Renata e outro bebê, que nasceu com problemas e morreu. Ao contrário do que sustenta a viúva presa -que Renê deixou Malvina ao surpreendê-la com outro-, a mulher o teria largado devido à bebida.

Sozinho, perto dos 50 anos, Renê tornou-se vendedor à margem de rodovia. Retornou à roça. Em um sítio, deixou cair sobre o pé o mourão, pedaço de madeira que sustenta a cerca de arame. A ferida no dedo não cicatrizava, e ele se abrigou com a irmã Ângela. Logo outra irmã, Miriam, o acolheu. Depois foi Adinéia, a irmã que morava de graça em uma casinha da escola pública de Tanguá onde era merendeira.

Renê chegou sem o dedo. A seguir, amputaram-lhe metade do pé. Ainda em 2002, a perna. Devorava gordura demais, ignorando os conselhos médicos ao diabético que ele já sabia ser.

De muletas, se escondia no Flavio's Bar, em frente, para tomar 500 ml de cachaça. Em 2003 foi-se a outra perna, e Renê se isolou. Aposentou-se pelo INSS e se transformou no homem triste que nunca fora. Caso policial ao morrer, ele era então problema social.

Ao enriquecer, recompensaria os parentes que o ampararam na desgraça. Quase todos os irmãos ganharam boas casas e outros presentes. A filha, uma residência de R$ 300 mil e um carro zero. Uma lavradora de Tomascar, o tanque para lavar roupa.

Foi um sobrinho que levou às Loterias Tanguá o jogo simples do tio. Renê fizera promessa a Nossa Senhora de Nazaré. Certa manhã, os funcionários da escola se surpreenderam: Adinéia, os filhos e o irmão haviam sumido para nunca mais voltar. Meses depois, o sorteado estouraria 20 caixas de fogos para a santa. Promessa cumprida.

Os Senna se recusaram a enterrar o irmão no cemitério da elite de Rio Bonito, no qual a viúva comprou um jazigo por R$ 5.000,00.

Pela taxa de R$ 105,29, Renê descansou sobre o corpo do pai, que já estava sobre o da mãe no cemitério de Rio Seco. O velho camarada o enterrou. Castro, o coveiro, já arriscou três vezes o número da cova, 701, no jogo do bicho. Até agora, continua tão pobre como um dia foi o seu amigo Renê.

Fonte: Folha de São Paulo

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