Cabeça de cuia - A opção inteligente

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Publicado em 01/08/2007 às 08h03

"Áudio da caixa-preta é um filme de terror. É algo muito forte"

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"Áudio da caixa-preta é um filme de terror. É algo muito forte"
Reportagem Sandro Lima e Fernanda Odilla da equipe do Correio Braziliense revelam que CPI ouve hoje o áudio da caixa-preta do Airbus. Aeronáutica antecipa que conteúdo é "um filme de terror".

As circunstâncias do trágico acidente com o Airbus A-320 da TAM, que explodiu há 15 dias, após o choque com o prédio da própria empresa, situado nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, devem começar a ser reveladas a partir de hoje. A CPI do Apagão Aéreo da Câmara se reúne nesta manhã, em sessão secreta, para checar o conteúdo das caixas-pretas da aeronave. Segundo relato de integrantes da CPI, os técnicos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) recomendaram cuidado na manipulação dos dados, pois o conteúdo é chocante. "Disseram a mim que o áudio da caixa-preta é um filme de terror. É algo muito forte", afirmou o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR).

O áudio reproduz os 30 minutos que antecederam o choque do Airbus com o prédio da TAM Express. O acidente, ocorrido em 17 de julho, causou a morte de quase 200 pessoas. Pelos relatos de integrantes da Aeronáutica aos deputados, a gravação captou os gritos de passageiros nos segundos que antecederam a explosão. "Ao contrário do acidente da Gol, neste os pilotos e passageiros tinham consciência que o avião ia bater?, declarou Fruet. ?O brigadeiro Átila Maia (assessor parlamentar da Aeronáutica) disse que é um filme de terror."

Sigilo
A comissão recebeu ontem às 14h o conteúdo das caixas-pretas e, em uma reunião fechada, decidiu guardar o material no cofre da comissão. O presidente interino da CPI, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), assinou o lacre e o relator, deputado Marco Maia (PT-RS), levou o material até o cofre da CPI. Hoje, às 9h, os deputados se reúnem com o chefe do Cenipa, brigadeiro Jorge Kersul Filho, e com o coronel Fernando Camargo, responsável pela investigação, para obter explicações sobre os dados. Logo depois, a CPI decidirá, em outra sessão secreta, o que será divulgado para a imprensa. "A minha posição é de que tudo deve ser divulgado. Se aprovar a divulgação, será em entrevista coletiva para toda a imprensa", afirmou Cunha.

Os deputados decidiram divulgar os dados para a imprensa para evitar vazamentos. "Não tem como não divulgar. O dano maior será o vazamento", disse Fruet. No encontro, a deputada Luciana Genro (PSol-RS) cobrou de Cunha o compromisso de que o conteúdo das caixas-pretas será preservado até ocorrer o encontro com os oficiais do Cenipa. "O presidente assegurou que não haverá vazamento", disse a deputada. Para o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), a CPI agiu corretamente ao preservar o sigilo das informações antes de definir o que fará com os dados. "Foi uma decisão prudente, porque para haver o vazamento, é melhor que ocorra uma divulgação correta das informações contidas nas caixas-pretas", afirmou.

Os deputados evitarão divulgar os trechos mais fortes do áudio. ?O que for chocante - como choro, gritos - é melhor que não se divulgue. Temos que respeitar as famílias?, defendeu Fruet. "Imagine a dor das famílias. É preciso ter respeito", pediu Vanderlei Macris (PSDB-SP). O brigadeiro Kersul disse ainda que não ouviu as gravações entre os pilotos por não ter "curiosidade mórbida". "Eu fiz questão de não ouvir, porque não interessa a mim conhecer os diálogos", afirmou.

Hipóteses
Com base num acidente com uma aeronave do mesmo modelo ? Airbus A-320 ?, ocorrido em junho de 1988 na França, as análises da caixas-pretas do avião da TAM podem revelar que o piloto não conseguiu desprogramar o computador a tempo. "Falha humana é 50% de chance, mas também tem a falha técnica", apontou Vic Pires Franco (DEM-PA).

O deputado explica que as análises do acidente na França mostraram que a aeronave estava pronta para aterrissar. Ao tentar arremeter manualmente, por avaliar que não seria possível o pouso, o piloto não conseguiu mudar a programação. Acabou batendo na copa de árvores durante uma demonstração de vôo em Habsheim. Três passageiros morreram.

Nos testes em um simulador, chamado de link, pilotos também tiveram problemas para conseguir arremeter o A-320. Todos que tentaram usar as manetes, comentou o deputado Miguel Martini (PHS-MG), não conseguiram evitar a queda. O único piloto que reverteu a situação da aeronave foi o que não mexeu nos comandos, permitindo ao computador, programado para voar em determinada altitude, resolver o problema sozinho, sem interferência humana. 'Não digo que foi isso o que aconteceu, mas relatos recentes podem nos fazer cogitar possibilidades", comentou.

Pouso difícil
A Infraero assegura que a pista do Aeroporto de Congonhas é segura. Relatos de controladores de vôo no livro de registros da torre em São Paulo, contudo, revelam o contrário. Um dia antes do acidente com o Airbus A-320 da TAM, que resultou na morte de cerca de 200 pessoas, profissionais da torre de controle anotaram pelo menos sete reclamações de pista escorregadia, reportadas pelos comandantes de aeronaves que aterrissaram na capital paulista, além da derrapagem do avião da empresa aérea Pantanal. Entre os dias 15 e 17, data em que foi registrada a explosão do avião da TAM, foram registradas 11 alertas sobre as condições da pista.

Piloto da TAM, José Eduardo Batalha Bresco reforçou ontem, em depoimento à CPI do Apagão Aéreo, que a pista é escorregadia quando está chovendo. Ele relatou que pousou na véspera do acidente com o Airbus e a aeronave derrapou. ?A pista nova ficou mais escorregadia depois da reforma, principalmente em dias de chuva?, disse.

No dia em que escorregou com o Airbus, Bresco conta que chovia levemente e que a pista ?parecia estar coberta por um vidro?. Nesse pouso, a aeronave da TAM fazia o vôo 3215 (Confins-Congonhas) e estava lotada, pesando 63t. O peso máximo permito para um pouso com segurança em Congonhas é 64,5t. ?Tenho receio de pousar em Congonhas em dias de chuvas?, afirmou.

Em 16 de julho, a primeira reclamação veio de um avião da Gol. Os comandantes do vôo 1879 informaram que ?a pista não estava grande coisa, com pouca aderência?. A aeronave, de acordo com os registros dos controladores, arremeteu porque a pista estava abaixo dos padrões mínimos para pouso. Minutos depois, foi a vez de pilotos de dois diferentes aviões da TAM reportarem que a pista estava escorregadia.

Depois dos cinco relatos, a Infraero solicitou a inspeção da pista. O funcionário informou à torre de controle a ausência de poças e lâminas d?água. Logo depois, o avião da Pantanal tocou a pista e, como revela o livro de registro, ?aquaplanou, saiu da pista (?), fez 180º de curva (derrapou) e parou na grama?. A pista foi interditada e depois liberada, sendo necessário interromper as decolagens porque uma viatura da Infraero entrou sem autorização no espaço reservado aos aviões.
Fonte: Correio Braziliense

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