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Publicado em 05/08/2007 às 08h01

Vítimas do vôo 1907 da Gol foram pilhadas

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Vítimas do vôo 1907 da Gol foram pilhadas
Os corpos das vítimas da tragédia do vôo 1907, envolvendo um avião da Gol, em 29 de setembro do ano passado, foram pilhados. Documentos importantes de alguns dos 154 mortos estão sendo usados hoje por falsários - um deles utilizou esses documentos no contrato de um empréstimo, no mês passado, em uma financeira de Brasília, para comprar um carro por R$ 20,4 mil.

Tão grave e impressionante quanto o uso criminoso dos documentos pessoais é o caso do celular de uma das vítimas que, dez dias depois do acidente, quando só tropas das Forças Armadas trabalhavam no local da queda do Boeing, apareceu em um subúrbio do Rio.

Por ter caído nas mãos de um revoltado e curioso "consertador" de celulares, o aparelho virou pivô de uma cena tétrica: sem que o corpo da mulher tivesse sido localizado e resgatado, o viúvo recebeu uma ligação feita a partir do celular dela. Do outro lado, uma voz masculina chamou-o pelo apelido de "Pretinho", uma maneira carinhosa pela qual era tratado pela mulher morta.

Ao longo da semana passada, o Estado recolheu provas e relatos de familiares a quem foram devolvidas carteiras, pastas e bolsas intactas dos parentes mortos, mas só com "documentos supérfluos", como carteirinhas de clubes esportivos, identificações profissionais e de freqüência em universidades e outros estabelecimentos de ensino. Há relatos em que fica claro que os espoliadores da tragédia só queriam mesmo os documentos.

Sem identidade
A empresária Janice Campos, moradora de Goiânia, recebeu o celular da filha funcionando e sem nada quebrado, além da bolsa com R$ 200, cartões bancários e talões de cheques, mas sem a identidade, CPF e certidão de nascimento do neto, sem a qual os dois, mãe e filho, não teriam embarcado em Manaus. Janice recebeu até a mochila do neto - dentro, a fantasia de Power Rangers.

Corpos de passageiros do vôo 1907, que nunca se separavam de certas jóias e não sofreram mutilações, foram entregues aos familiares sem alianças, cordões de ouro e brincos de estimação. Parentes receberam caixas de relógios sem um arranhão - e sem os relógios.

O comando da Aeronáutica, que coordenou toda a operação de resgate, a Gol e a Blake Emergency Services, empresa inglesa contratada para fazer o serviço de desinfecção e higienização de todos os pertences, não sabem explicar como sumiram dessas bolsas intactas os cartões de crédito, carteiras de identidade, carteiras de motorista e CPFs dos mortos.

Após a retirada dos objetos da selva de Mato Grosso, tudo foi reunido em um galpão, em Brasília. Entre a coleta e a devolução aos parentes, os pertences ou foram manuseados ou ficaram à vista de militares, índios e mateiros, policiais civis, bombeiros, funcionários da Gol e técnicos da Blake. Onde e como foi a pilhagem ainda é uma incógnita.

Nem documento nem cartão de crédito
Rolf Guthjar, morto aos 50 anos no acidente da Gol, foi o segundo passageiro do vôo 1907 localizado pelos militares do Para-Sar e identificado logo em seguida. No bolso de sua camisa, os soldados encontraram um telefone celular feminino. Bastou contatar a operadora para descobrir que a dona do aparelho era Rosane Guthjar, mulher de Rolf.

Como de costume, o empresário viajava levando consigo uma maleta preta da marca Samsonite, devidamente trancada à chave porque continha seus pertences mais valiosos, de documentos pessoais e da empresa a dinheiro em espécie. Naquele 29 de setembro, a última chamada registrada no celular foi para informar a mulher que estava levando o pró-labore dela, tal como havia prometido. Exatos R$ 5 mil. A maior surpresa de Rosane Guthjar foi receber um molho de chaves e o passaporte do marido pelo correio, na residência do casal, em Curitiba.

"Tanto o passaporte quanto as chaves estavam dentro da maleta. Disso não tenho dúvida", afirmou ela, para fazer, em tom de revolta, uma dedução óbvia: "Se o passaporte é de papel e estava em perfeito estado, como se tivesse saído da gaveta, só posso concluir que a maleta foi aberta na marra, depois da queda do avião." No entanto, nenhum documento pessoal do empresário nem tampouco seus cartões de crédito estavam nela.

"Nem falo da pulseira de ouro com brilhantes que não tirava do pulso, do relógio Bulova ou das canetas Mont Blanc, que ele carregava onde quer que fosse. Mas onde estão os cartões de crédito, a carteira de identidade e as fotografias que ele guardava na carteira?", pergunta Rosane. "Esses objetos tinham valor afetivo para mim."

Celular no mercado negro
Quando o telefone do advogado Maurício Saraiva tocou em Brasília, na noite de 9 de outubro de 2006, dez dias haviam se passado desde o acidente com o vôo 1907 da Gol, e o corpo de sua mulher Maria das Graças Rickli, uma das vítimas da tragédia, ainda não havia sido localizado. Foi um choque ouvir a voz masculina perguntar se era o "Pretinho" quem estava na linha, já que apenas Graça o chamava por esse apelido. Mas a surpresa maior veio com a revelação feita em seguida.

Bastou Maurício se identificar para o homem contar que estava com o celular de sua mulher nas mãos, embora falasse de um subúrbio do Rio, a 1.800 quilômetros do local do acidente. "Receberam o aparelho de presente aqui no Rio, de alguém da Aeronáutica", prosseguiu o interlocutor. Para provar que falava a verdade, informou que localizara o número de "Pretinho" repetindo a última chamada feita daquele aparelho. Mais: leu outros nomes e números da agenda, começando por Anne Rickli, a primogênita de Graça. O episódio foi o primeiro sinal concreto da pilhagem às vítimas do vôo 1907.

Muitas vítimas localizadas na selva tiveram seus corpos preservados, segundo atestou o Instituto Médico Legal (IML) de Brasília, mas as jóias que estavam usando não apareceram. O pesar maior de viúvos e viúvas dos passageiros é, quase sempre, pela falta da aliança que o companheiro jamais tirava do dedo. No caso específico de Graça Rickli, o laudo 37978, seqüencial 133, da perícia realizada pelos legistas comprova que ela não perdeu nenhum dos dedos das mãos no acidente. Ainda assim, tanto a aliança como o anel de brilhantes que ela usava desapareceram.

A Aeronáutica, que trabalhou na localização e recuperação dos corpos e das bagagens, não sabe explicar como o celular apareceu no Rio. A história só chegou ao conhecimento da família porque o telefone, danificado na queda do avião, foi levado para o conserto, e um dos técnicos da loja decidiu contatar a família do dono do aparelho.
Fonte: Christiane Samarco, do Estadão

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