Recentemente eleito presidente nacional do PSDB, o senador pernambucano Sérgio Guerra tem uma meta audaciosa em 2008. Os tucanos querem eleger em torno de 800 prefeitos no interior, além de lançarem candidatos nas 250 principais cidades brasileiras. Para dar vazão ao plano, o senador já iniciou conversas com outros partidos, até mesmo com alguns que compõem a base do Governo Lula. "Tudo é possível. Estamos abertos", acenou Sérgio Guerra, nesta entrevista, por telefone, concedida à Agência Nordeste.
No plano nacional, enquanto não escolhe qual carta lançará à mesa em 2010 - se o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, ou o de São Paulo, José Serra -, Guerra aproveita o momento de êxtase vivido pela oposição após a derrota da CPMF no Senado para lançar farpas a prováveis adversários na batalha presidencial: "Ciro Gomes tem a seguinte marca: começa muito bem as campanhas, fala e se atrapalha", provocou, ao rebater uma declaração do socialista sobre a postura da oposição na votação do "imposto do cheque".
O ano de 2008 será de eleições municipais. Existe um grande plano nacional para o PSDB, uma meta eleitoral, uma li nha de trabalho própria a ser cumprida?
Teremos candidatos nas 250 principais cidades do Brasil com maior eleitorado ou naquelas que, mesmo sem terem um eleitorado grande, têm capacidade de gerar informação, ou seja, de influenciar áreas no entorno delas, como sinais de televisão e rádios. Devemos crescer o número de prefeituras em cada capital. Atualmente, governamos São Paulo, Curitiba, Teresina e Cuiabá. Também queremos crescer no número de prefeituras do interior, as não-metropolitanas, em torno de 800 prefeitos no Brasil. Para isso, vamos fazer uma ampla política de alianças, que não vão ser apenas com os aliados prioritários, que são o DEM e o PPS, mas vamos buscar, em alguns casos, partidos da base do Governo. Já vamos agendar conversas com o PSB e com o PMDB para isso.
Há planos para ampliar a presença do PSDB no Nordeste?
Temos chances de ganhar as eleições em Salvador e em São Luís. Boas chances. Em São Luís, com o ex-governador João Castello, e, em Salvador, com o ex-prefeito Antônio Imbassahy.
Qual será sua participação como presidente do partido nas eleições de 2008 nas capitais do Nordeste e no interior?
Vamos planejar essa estratégia com os diretórios estaduais. Agora em janeiro, vou começar a visitar as capitais com vistas às eleições. Ao longo do primeiro semestre, será feito o recadastramento dos filiados que sejam consistentes com o partido. Em Pernambuco, como tenho um histórico político, vou ter que tomar outra atitude, trabalhando mais intensamente e indo para o interior.
Como está a articulação do PSDB com outros partidos para as eleições municipais no Nordeste?
Vamos crescer no Nordeste e já estamos crescendo na Bahia; vamos crescer em Sergipe; em Alagoas também e já vamos bem lá; vamos crescer em Pernambuco, onde já temos 26 prefeitos; na Paraíba estamos bem; no Rio Grande do Norte, vamos fazer uma reestruturação do partido, dando atenção especial e prioridade a um projeto de recuperação do crescimento lá; no Piauí estamos bem e vamos reeleger o prefeito (de Teresina, Silvio Mendes); no Ceará também, Tasso (Jereissati) está bem lá; no Maranhão, vamos muito bem. O partido, no geral, cresce no Nordeste. As alianças são heterodoxas. As eleições municipais têm essa marca. Tudo é possível. Estamos abertos.
O partido já decidiu se vai lançar candidatura própria no Recife ou se vai apoiar algum candidato de outro partido da oposição?
Já temos projetado de discutir isso com (o senador) Jarbas (Vasconcelos-PMDB), com o PPS e com o DEM. A oposição tem um projeto de ter vários candidatos. Vamos estabelecer projetos de comum acordo. É provável que o PSDB não tenha candidatura própria, mas, se for melhor para o nosso conjunto, poderemos ter. Vamos definir isso depois do Carnaval. Tenho conversado com o PMDB, com o PPS, com (o pré-candidato) Mendonça (Filho-DEM) e mais intensamente com Jarbas, que é meu companheiro no Senado.
No plano nacional, o PSDB tem dois fortes candidatos à Presidência: Aécio Neves e José Serra. O primeiro tem mais proximidade com o presidente Lula e o outro está claramente colocado na oposição. A definição do candidato para 2010 vai passar pela posição do partido sobre qual lado vai assumir nos próximos meses diante do Governo Lula?
Não concordo que Aécio tenha mais afinidade com o Governo. Acredito que os dois têm uma boa relação política no plano administrativo. Nosso candidato a presidente vai depender da resposta para a seguinte pergunta: como é mais fácil ganhar a Presidência da República? Com um ou com outro? Os dois estão qualificados, os dois têm votos e qualificação. Mas isso vai ser definido com pesquisas e prévias também. A prioridade, neste momento, é abrir o partido. Tudo em seu tempo. Queremos filiar um grande contingente de brasileiros que tenham afinidade com o PSDB, discutir formas de participação, inclusive, para eleições primárias.
O PSDB tem mantido conversas com outros partidos pensando em 2010 e esses entendimentos estão sendo feitos até com aliados do presidente Lula. Qual será o critério do PSDB nas eleições de 2010? Agregar o maior número de partidos, sejam da base ou não?
Não conversei sobre eleições com outros partidos, a não ser localmente, mas no geral ainda não. Quanto aos critérios, somos um partido nacional e temos candidatos viáveis a presidente da República. É de esperar que, depois das eleições municipais, muitas mudanças venham a se processar e novas alianças sejam construídas. Acho que o presidente Lula terá candidato a presidente da República. Candidatos ou candidato. Nós teremos os nossos.
Gostaria que o senhor fizesse um balanço de como foi 2007 para o PSDB no Congresso. Politicamente, a derrota da CPMF pode ser tomada como a grande vitória da oposição este ano?
O Congresso foi marcado, este ano, por um forte traumatismo que envolveu o (ex-)presidente do Senado, que foi a crise com Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas, ao final do ano, as oposições e o Senado deram uma prova de liderança e de democracia rejeitando a CPMF. Acho que isso terá feito a diferença no comparativo com 2006. 2007 foi um ano atípico, porque, por conta da crise no Senado, a gente ficou paralisado. A CPMF foi uma vitória do Congresso e da democracia.
Em entrevista concedida recentemente a um blog, o ex-ministro e deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) disse que a oposição apelou ao reprovar a CPMF porque, na verdade, queria mesmo dar um golpe no Governo. Existe coerência nessa declaração do ex-ministro?
Ciro Gomes tem a seguinte marca: começa muito bem as campanhas, fala e se atrapalha. Essa é uma das falas que o atrapalham. Essa afirmação não faz o menor sentido.
Já o presidente do Democratas, Rodrigo Maia (RJ), afirmou recentemente, também em entrevista, que a oposição já pensa em outros planos para derrotar o Governo.
Isso não é golpe, é democracia. Pelo contrário: a derrota da CPMF foi uma afirmação do Congresso. Pergunte a qualquer brasileiro. Essa foi a prova de afirmação do Congresso e da democracia no Brasil.
Na opinião do senhor, até que ponto vai o jogo político entre Governo e oposição e onde entram os verdadeiros interesses da população brasileira?
Vamos esquecer a palavra jogo. À oposição cabe fazer oposição. Ao Governo cabe governar. Ao Congresso cabe fiscalizar o Governo e fazer valer a democracia. É a prática do ambiente democrático.
Faltou poder de negociação do Governo ao tratar da CPMF com a oposição?
Faltou. Quando eles pensaram que iam ganhar, não negociaram. Quando viram que iam perder, deram para trás. No período, houve uma mudança no Governo, no Ministério das Relações Institucionais (com a saída de Walfrido dos Mares Guia e o ingresso de José Múcio Monteiro). Mas, no último período, o Governo, no geral, trabalhou mal. Houve, nos últimos dias, um esforço, e reconheço que foi um esforço positivo.
A troca de votos por cargos pesou nessa negociação?
O Governo tem que levar como lição da CPMF que a política de trocar cargos por votos, emendas por votos, fracassou, naufragou. Aposto que, se o Governo, agora, passar a negociar com os partidos e não com as pessoas, a discutir os problemas gerais e não os particulares de cada um, o Brasil vai avançar e a democracia também. Espero que essa idéia ganhe força com o ministro José Múcio.
Após essa derrota do Governo, como o senhor acredita que deverá ser a relação entre o presidente Lula e o Senado, no sentido de negociação de novas propostas?
O Governo Lula só tem duas alternativas: ou muda a relação com a base dele que produziu todas essas crises, como o mensalão, e passa a discutir com os partidos os problemas nacionais, ou é previsível mais dificuldade para o Governo e mais radicalização.
Quais as perspectivas gerais para o PSDB em 2008? O que os cidadãos e os políticos brasileiros podem esperar do seu partido no próximo ano?
O PSDB governa metade do Brasil. Dois estados governados pelo partido, Minas Gerais e São Paulo, são exemplos para o Brasil inteiro, como dizem as pesquisas de opinião pública. Em Alagoas e no Rio Grande do Sul, encontramos dados quebrados, mas nossos governadores vão fazer o ajuste fiscal que precisam fazer e estão fazendo. Na Paraíba, estamos bem com o governador Cássio Cunha Lima. Em Roraima, também estamos bem, apesar da morte do governador Ottomar Pinto. Governamos bem a parte do Brasil que nos cabe. Fazemos oposição ao Governo Federal com equilíbrio. Nada a ver com o ?quanto pior, melhor?. Não disputamos campeonato de radicalização. A questão é ter lucidez. Claro que o Governo Lula tem alguns pontos positivos, mas, do ponto de vista gerencial, ele é péssimo.
E quais são esses pontos positivos?
A política econômica no geral.
E o social?
Acho que o Governo faz bem em dar prioridade, mas trabalha mal. Quero um quadro na área social no qual as pessoas tenham a sobrevivência garantida, por isso sou a favor do Bolsa Família, mas que a pessoa não dependa do Estado, do Governo, como dependia no passado dos coronéis no Nordeste, que eram agentes do Estado. Nesse ambiente, a instrumentalização e a quebra do compromisso profissional, com nomeação de pessoas, políticos, como fizeram com Furnas (assumida pelo ex-prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde, do PMDB) para aprovar a CPMF na Câmara, são exemplos deploráveis.
E como vai ficar o Brasil sem a CPMF?
Eu acredito que o Brasil vai continuar bem, que o Governo vai reajustar suas contas e acredito na palavra do presidente de que não vai aumentar impostos. Espero que esse discurso venha a ser verdade.
Fonte: Ana Cláudia Dolores / Agência Nordeste / Folha de Pernambuco
Palavras-chave: sergio guerra
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