Reportagem de Luís Ferrari para a Folha de São Paulo deste domingo revela que Sarah Menezes, 17, é a primeira atleta de seu Estado a se garantir nos Jogos Olímpicos sem precisar deixar a terra natal
Judoca, que, no início da carreira, enfrentou oposição da família para treinar, hoje assina autógrafos quando sai pelas ruas de Teresina
Confira a reportagem na íntegra:
Do Piauí para o mundo. Assim é a trajetória de Sarah Menezes, 17, judoca que é a primeira atleta de seu Estado a garantir presença numa Olimpíada sem precisar deixar a terra natal para se preparar.
Na próxima sexta-feira, às vésperas de virar maior de idade, ela será anunciada como titular do peso ligeiro (48 kg) na equipe que competirá em Pequim em agosto. Será a mais longa de uma série de viagens que só foi possível por causa dos seus feitos nos tatames.
"O judô me ajudou muito na vida pessoal. Minha mãe não paga escola para mim há cinco anos, pois ganho bolsa de estudos, como uma forma de patrocínio", conta Sarah.
Mas nem sempre ela teve o apoio familiar em sua trajetória esportiva. depois de tomar contato com a modalidade em uma apresentação no colégio, quando tinha nove anos, ela resolveu treinar numa academia.
"A família inicialmente não tinha tanto interesse no judô, que viam até com certo preconceito, como um esporte muito masculino", lembra Expedito Falcão, o professor com quem ela começou e que até hoje é seu treinador.
Naquele tempo, para chegar ao treino, Sarah pedia aos amigos da vizinhança o dinheiro para a passagem de ônibus. "Minha mãe não me dava."
Para voltar, pegava carona com Expedito, uma rotina que eles mantêm até hoje.
Depois de conseguir convencer os pais de seu talento, a oposição virou incentivo. Quando ela deixou o Estado pela primeira vez, "para lutar um Brasileiro em Santa Catarina no ano 2000", a família já incentivava sua carreira esportiva.
O sucesso no país expandiu seus horizontes. Em 2003, fez a primeira viagem internacional, para um Pan, na Bolívia. "Tirei dinheiro da minha poupança para ela fazer aquela viagem. E não me arrependo nem um pingo", conta o treinador, enfatizando que a pupila é a primeira atleta do judô feminino a amealhar títulos nacionais nas categorias juvenil, júnior e sênior numa mesma temporada (em 2005 e 2006).
Expedito atribui seu desenvolvimento aos treinamentos. Ela costuma lutar com garotos. "E já teve rapaz que ficou com a auto-estima baixa, por apanhar tanto de mulher."
Como tudo tem dado certo em Teresina, Sarah não quer repetir o rumo de outros atletas de seu Estado, para centros esportivos mais desenvolvidos.
Além de se firmar nos resultados, transmitindo segurança no tom de voz, ela tem outro argumento para justificar a escolha: "Saio na rua aqui e todo mundo me conhece".
A mesma firmeza ela passa ao descrever seu estilo. "Tecnicamente sou boa, entro com golpes do mesmo jeito, tanto pela direita quanto pela esquerda, o que é um diferencial até na seleção. Prefiro o estilo japonês, mas sei dominar também catadas de pernas."
Essa conduta é elogiada por Ney Wilson, coordenador da seleção. "É uma jovem, que não tem compromisso com a história. Enfrenta qualquer uma de igual para igual, sem ligar para o currículo da oponente."
Rosicléia Campos, técnica da seleção feminina, aponta outra virtude da medalhista de bronze na etapa de Budapeste da Copa. "Nunca está satisfeita. Sempre quer algo mais."
Fonte: Folha de São Paulo - Luís Ferrari
Palavras-chave: sarah menezes
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