Bastaram R$ 0,80 para destruir as vidas de Paula (nome fictício) e Grazielli, estudantes de 16 e 14 anos. Às 12h20 de segunda-feira passada, Paula ateou fogo em Grazielli, companheira de classe, após jogar na colega a gasolina que havia comprado por R$ 0,80. Elas estavam próximas da escola estadual onde estudavam, na periferia da Zona Oeste. 'Joguei a gasolina, acendi o isqueiro e sai correndo... Não olhei para trás.' O ato de desespero, segundo Paula, foi o resultado de três semanas de tensão.
Demonstrando arrependimento, a garota tomou sozinha a decisão de se entregar à Promotoria da Infância e da Adolescência nos próximos dias. Poderá ir para a Fundação Casa (antiga Febem). 'É melhor do que ficar me escondendo.'
Por que você pôs fogo em Grazielli?
As meninas implicavam comigo, falavam da minha roupa, do meu cabelo porque gostava de fazer chapinha. Sou vaidosa. Foram implicando, implicando... Ameaçavam me matar, e a minha irmã e irmão também, se eu contasse a eles. A situação foi ficando insuportável. Aí, aconteceram as brigas.
O que motivou a primeira briga?
Três meninas me seguiram (Grazielli e duas amigas). Uma delas puxou o meu cabelo. Em seguida, disseram que iriam me matar. Eu virei, cai, e ela (Grazielli) começou a arranhar a minha cara. As pessoas separaram a gente. Na quinta-feira, a Grazielli não foi na escola, mas a provocação das outras continuou; as ameaças também.
E na sexta-feira?
As quatro foram à escola. Elas começaram a dizer que iriam me pegar no final da aula e que se falasse para alguém que elas estavam me batendo, se contasse para a minha irmã ou para alguém da minha família, elas iriam chamar os moleques... para matar a minha irmã e meu irmão. As minhas amigas disseram que eu estava estranha, mas não podia falar com elas sobre o que estava acontecendo. Naquele dia, a coisa foi subindo... (faz longa pausa).
Estava sendo um dia muito difícil?
Muito. Na terceira aula não agüentava mais. Chamei a professora de matemática para fora da sala de aula. Como não podia contar o problema para ela, pedi que ficasse observando o grupinho da Grazielli. Quando entrei na sala, fiquei nervosa. Várias vezes pedi para sair. Fui várias vezes ao banheiro para me acalmar. Não queria brigar ali na sala. Na hora do recreio, elas se juntaram e disseram 'é hoje, é hoje'. Eu pedi para sair de novo. Fiquei no orelhão pensando se ligava para a minha irmã e contava o que estava acontecendo. Mas se contasse, ela iria no colégio. Aí, elas podiam matá-la como ameaçavam. Ficava no orelhão, no banheiro, voltava para a sala...
E quando acabou a aula?
Eu sai na frente. Mas as quatro conseguiram me alcançar. Logo encheu de menina em volta de mim. A Grazielli veio agitando... Os meninos amigos dela também me rodearam. Uma delas veio por trás, pegou uma tábua e tacou nas minhas costas. Caí no chão e ela começou a puxar meus cabelos e a me agredir com socos. A Grazielli só ficou olhando. Depois, ela começou a me chutar. Eu peguei um compasso que tinha na bolsa para me defender da primeira que estava me socando, acabei rasgando ela. Vieram uns caras e separaram a gente. Fiquei caída no chão machucada.
Você não contou para a sua irmã?
Não podia. Na sexta-feira, depois da briga, tentava disfarçar o olho todo roxo colocando o cabelo à frente. Fiz isso até quando fui dormir, para ela não ver. No domingo, por volta de 18h, a gente tinha acabado de chegar do parque. Fui na casa da minha tia que mora em frente. Quando atravessei a rua, escutei os meninos do colégio dizendo que aquela era a garota que seria morta no fim da aula de segunda-feira. Fiquei abaixada na varanda da minha tia escutando tudo. Eles diziam: 'amanhã é o dia dela'.
Você conseguiu dormir?
Não. Fiquei a noite toda só pensando o que fazer... (chora muito). Na segunda-feira, peguei R$ 0,80. No caminho para a escola, passo na frente de um posto de gasolina. Levei um isqueiro e uma garrafinha vazia de água mineral e pedi para a moça do posto me vender R$ 0,80 de gasolina. Não era acostumada a levar mochila para a escola, mas naquele dia levei e coloquei a garrafinha lá dentro. Ainda perguntei se tinha fósforo, mas ela disse que não. Só que eu tinha o isqueiro.
E como foram as aulas naquele dia?
Quando entrei, elas começaram a falar: 'é hoje que a cobra vai fumar'. Me xingavam muito. Xingavam minha mãe (chora muito). E gritavam: 'é hoje, é hoje'. Fiquei fora da sala, me escondia no banheiro porque não queria brigar com elas. Na hora do intervalo, elas me cercaram com a ajuda de alguns meninos.
E na hora de ir embora?
Fiquei para trás com medo de morrer. Avisei uma amiga que se acontecesse alguma coisa comigo que ela não viesse me defender porque poderia ser perigoso.
E quando você saiu do colégio?
A Grazielli e as outras estavam me esperando um pouco acima do portão. A Grazielli veio agitando. Era ela quem sempre agitava. De repente começou a gritar: 'vem cá, quero falar com você'. Eu disse que não queria brigar, mas ela veio me empurrando. Insistia que não queria brigar mas ela e as amigas me cercaram. A Grazielli me empurrou de novo. Tirei a garrafinha e joguei a gasolina nela. Todo mundo começou a gritar para ela: 'a menina está com álcool, a menina está com álcool'. Mesmo assim, ela continuou... Só deu tempo de acender o isqueiro... Mas eu não queria botar fogo nela... Sai correndo e não tive nem coragem de olhar para trás para ver como ela estava. Uma amiga da Grazielli veio atrás de mim e tentou me segurar. Consegui me livrar da menina e continuei correndo. Um moleque me deu um chute nas costas, quase caí mas continuei correndo. Consegui fugir, entrei em casa e tomei um banho. Eu estava tremendo, toda pálida. Pensava no que tinha feito. Fui até a casa da minha tia a fim de ligar para a minha irmã. Queria dizer o que havia acontecido. Umas amigas foram me ver. Perguntei como ela estava... Depois a minha irmã chegou, fui para o hospital e daí em diante não lembro de mais nada (Paula foi levada para o hospital em estado de choque onde passou a tarde internada).
Você chegou a pensar em alguma outra alternativa que não fosse jogar a gasolina?
Não. O que veio à minha cabeça quando escutei os meninos foi o posto de gasolina onde passava todos os dias. Aí tive a idéia.
Você se inspirou em alguma coisa que tenha visto?
Não.
Então, a gasolina foi comprada com a idéia de jogar nas meninas?
Não, eu não queria jogar nelas, nem na Grazielli. Tanto é que falei várias vezes que não queria brigar.
Se você estava com tanto medo, não era mais fácil ter faltado na escola na segunda-feira?
Nunca faltei. E fiquei com medo da minha irmã ligar para o colégio e ir até lá... E se quando ela chegasse, as meninas agredissem?
Você se arrepende do que fez?
Sim, muito. Eu não queria colocar fogo nela.
Você tem ódio delas?
Não. Eu tenho raiva porque implicavam comigo, riam de mim. Eu nem conversava com elas, sentava longe delas na classe.
Por que decidiu se entregar?
É melhor do que ficar escondida (chora) e ser tratada como bandida. Foi uma decisão minha.
Você se assusta com a possibilidade de ficar na Fundação Casa?
Não.
Fonte: MARICI CAPITELLI, - Diário do Povo
Palavras-chave: violencia jovens
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