No ponto em que estavam as polêmicas em série, o ministro da Educação, Fernando Haddad, também achou por bem incluir a sua. Falou de uma proposta que acalenta de rever o “Sistema S”, aquele que engloba o Sesi, Senac, Sebrae – e que forma perto de 60 mil alunos por ano. Diz Haddad que com apenas R$ 5 bilhões dos R$ 8,2 bilhões que o “S” recebe do contribuinte para a formação técnica daria para atender dois milhões de estudantes da escola pública do ensino médio. Era um tiro direto nos projetos sob o amparo de entidades empresariais privadas, como as Fiesp da vida. E não era só essa alfinetada que os políticos reservavam aos empresários. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, pensou em algo mais ousado. Ele sugeriu que se discuta no âmbito da reforma tributária a instituição de uma taxa de 5% sobre a folha de pagamento de funcionários para o financiamento à educação. Jorge Gerdau Johannpeter deu a resposta: “A oneração da folha de pagamento é um erro. Temos um custo total de 40% de impostos na folha, uma estrutura medieval. Nenhum país que tenta vender mais lá fora importa impostos.”
Durante as discussões e exposições todos admitiam que alguma coisa teria de ser feita para sanear o problema da educação no País. Doria, buscando o tom da conciliação, falou que essa era uma questão suprapartidária. A pergunta fundamental: existiriam duas correntes possíveis, dois caminhos distintos, o político e o empresarial, com resultados comuns? A impressão geral é que, embora sempre tenha havido a luta de classes de empresários e políticos – e que ali assumiu uma magnitude maior dada a força do tema –, as ações conjuntas trariam soluções. Algumas delas: a tentativa de medir a performance das crianças nas escolas públicas e de se estabelecer metas de alfabetização. Chinaglia propôs a criação de uma Lei de Responsabilidade Educacional e Garibaldi falou em CPI da educação para aprofundar o debate. Investimento? Dali saíram, em pouco mais de dez minutos de lances espontâneos de doação, uma arrecadação de quase R$ 6 milhões para os programas educacionais do Instituto Ayrton Senna. A primeira- dama de São Paulo, Mônica Serra, também fez uma arrecadação recorde para a sua campanha do agasalho: perto de 200 mil cobertores só ali, número maior que o conseguido durante todo o ano passado.
Talvez devido ao ineditismo de se reunir tamanha força-tarefa em um só lugar para uma mesma questão, num seminário que se estendeu por quase todo o dia, o saldo foi bem produtivo. Do ministro da Educação ao presidente do Congresso, passando por especialistas diversos e a presença maciça do capital, todos contribuíram para soluções concretas. O governador do Piauí, Wellington Dias, clamou por atenção. “Com 222 municípios, o Piauí, há nove anos, só tinha ensino médio em 35 municípios. Está melhor, mas precisa de ajuda. Foi por falta de educação que perdemos a corrida com os outros Estados.” O de Alagoas, Teotônio Vilela Filho, pediu socorro ao ministro: “Detemos a triste marca de possuir o maior número de analfabetos do País, 46% da população.” Depois, em mais uma inspiração metafórica – a turma política estava afiada no dia –, declarou- se a Viviane Senna: “Vivi, eu já te amava antes, mas era um amor platônico. Quando chegar em Alagoas e anunciar o acordo com o instituto, esse amor será real.” E, para não ficar de fora, Waldez Góis, governador do Amapá, saiuse com uma ode marqueteira: “Eu não moro no fim do Brasil, como alguns pensam. Ali começa o Brasil. É o meio do mundo, esquina com o rio Amazonas. Olhem por nós.” Nove horas de intenso embate depois, os presentes selaram a paz com um jantar. Por algum motivo, nem o governador baiano, Jaques Wagner, nem o empresário Manoel Amorim foram vistos por lá.
Fonte: Carlos José Marques - Istoé São Paulo
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