Economia Quinta, 28 de Agosto de 2008

Custos e endividamento ameaçam aumento da produção

19/07/2008 - 09h33min

A meta do Governo de produzir 150 milhões de toneladas de grãos na safra 2008/2009, anunciada no início do mês, está ameaçada diante do aumento dos custos de produção e do endividamento dos produtores rurais, apesar do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e do saldo comercial, e da maior estimativa de Valor Bruto da Produção (VBP).

A afirmação foi feita pelo superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ricardo Cotta Ferreira.

A estimativa é extremamente viável, mas corre o risco de não ser alcançada.

O setor vai bem, mas os produtores rurais, nem tanto, argumentou.

Ao divulgar os Indicadores Rurais de julho, nesta última quinta-feira (17/07), ele explicou que o principal vilão dos agricultores tem sido o fertilizante.

Mencionando a cultura de soja, ele informou que um trabalho de campo realizado pela entidade em dez municípios produtores da oleaginosa constatou que o produto terá aumento nos preços que variam de 51,37% a 136,16%.

Estes índices provocarão altas de até 52,4% nos custos de produção.

Cotta exemplificou que, no município de Sorriso, em Mato Grosso, um produtor de soja que desembolsou 17,19 sacas por hectare na atual safra para adquirir fertilizantes, terá de disponibilizar no período 2008/2009 o equivalente a 22,92 sacas para comprar o insumo.

Se alguém produz 50 sacas por hectare, terá de reservar quase a metade para comprar fertilizantes, afirmou.

Segundo o levantamento, na cidade de Uruçuí, no Piauí, a diferença passará de 11,83 para 21,44 sacas por hectare.

A alta nos valores pagos por esses insumos é atribuída principalmente à importação de 70% de algumas matérias-primas utilizadas em sua fabricação, como nitrogenados, fosfato e potássio.

Quanto aos defensivos, o superintendente técnico afirmou que o estudo revelou reajustes de 8,95% a 19,20% nos preços na próxima safra, devido ao registro de novos produtos e à entrada de defensivos genéricos.

Segundo Cotta, houve ainda a redução da tarifa antidumping do glifosato importado da China, de 35,8% para 2,9%, fator que contribuiu para que os preços dos defensivos não aumentassem demais.

O glifosato é uma matéria-prima utilizada na fabricação de defensivos.

No entanto, é necessária a aceleração do processo de novos registros para baixar mais os custos, ressaltou.

Em relação ao endividamento dos produtores rurais, outro fator que ameaça a meta de produção projetada pelo Governo, Cotta disse que o principal motivo de apreensão do setor produtivo é o adiamento da votação da Medida Provisória (MP) 432, que trata da renegociação de R$ 75 bilhões em dívidas de operações de crédito rural.

Desde 12 de julho, a matéria tranca a pauta do plenário da Câmara dos Deputados e poderá ser analisada apenas em agosto, após o retorno do recesso parlamentar.

Apesar da MP estar em vigor, os bancos adotam a estratégia de esperar a matéria se tornar lei para iniciar o processo de renegociação.

Desta forma, ressaltou Cotta, muitos agricultores inadimplentes ficam impedidos de tomar novos empréstimos para financiar a próxima safra e não dispõem de renda para ampliar a produção.

Os produtores precisavam equacionar o passivo do passado para ter acesso a novos empréstimos.

Sem isso, eles não terão renda para produzir, o que pode acarretar queda da produção no futuro, alertou.

Para o assessor técnico da Comissão Nacional de Comércio Exterior da CNA, Matheus Zanella, com a demanda mundial por alimentos, o produtor precisa se sentir estimulado a produzir.

Sem renda, o produtor não tem estímulo.

As conseqüências disso são a redução de oferta e os preços para o consumidor continuarão altos.

Fonte: AgroRede Notícias


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