Certo dia do mês passado, envolvido em roupas de plástico branco dos pés à cabeça, o Dr. David Sinclair mostrou o abrigo dos ratos para pesquisas em seu laboratório na Escola de Medicina da Universidade Harvard, em um ambiente completamente esterilizado.
Os ratos, cobaias em testes de saúde e longevidade, são mantidos em cestas de arame, sob tratamento intensivo de enfermagem. Uma academia de ginástica para roedores abriga uma máquina de exercícios em miniatura que testa a capacidade dos roedores de se equilibrar em uma barra rotativa.
Em um labirinto aquático vizinho, os ratos precisam recordar pistas visuais a fim de nadar em segurança até uma plataforma escondida, o que testa seu poder de memória. Os que esquecem as lições são resgatados quando começam a se afogar, e secados sob uma lâmpada de calor, garantiu Sinclair ao jornalista.
Ele é co-fundador da Sirtris, uma empresa que vem percorrendo águas incógnitas, em seu esforço por desenvolver medicamentos capazes de prolongar a vida humana. Mas parece ter encontrado sua plataforma de segurança, no mês passado, quando foi adquirida pela GlaxoSmithKline, uma gigante do setor farmacêutico, por US$ 720 milhões.
A Sirtris tem dois remédios em teste clínico. Um está sendo experimentado no combate ao diabetes tipo 2, uma das muitas doenças do envelhecimento que os cientistas da empresa esperam que seus remédios possam evitar. Mesmo que haja sucesso quanto a apenas uma dessas doenças, o impacto sobre a saúde "poderia ser uma transformação", disse o Dr. Patrick Vallance, diretor de pesquisa de medicamentos na GlaxoSmithKline.
Os novos remédios são conhecidos como "acionadores de sirtuin", o que significa que ativam uma enzima chamada sirtuin. A teoria básica é a de que todas ou quase todas as espécies têm uma estratégia antiga para superar os períodos de fome: transferir recursos da reprodução à manutenção de tecidos. Uma dieta saudável, com 30% menos calorias do que o usual, deflagra essa reação em ratos e é uma intervenção que pode confiavelmente torná-los mais longevos. Os ratos parecem viver mais porque estão de alguma maneira protegidos contra as doenças que usualmente os matam.
Mas a maioria das pessoas não seria capaz de manter uma dieta com corte de 30% de calorias, de modo que um remédio que ative o reflexo da fome poderia ser altamente desejável. O Dr. Leonard Guarente, biólogo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que fundou os estudos do sirtuin, acredita que o reflexo da fome seja mediado pelas enzimas do sirtuin.
Sinclair, seu antigo aluno, descobriu que o sirtuin pode ser ativado por medicamentos. A mais poderosa das drogas a surgir de sua avaliação foi o resveratrol, uma substância natural encontrada no vinho tinto, ainda que em quantidades provavelmente pequenas demais para que beneficie a saúde de maneira significativa.
O remédio da Sirtris que está em testes em pacientes de diabetes é uma formulação especial do resveratrol que, gera na corrente sangüínea, uma dosagem cinco vezes mais alta do que a do produto isolado. O remédio, conhecido como SRT501, foi aprovado em testes de segurança e, ao menos em testes de pequena escala, reduziu os níveis de glicose dos pacientes.
O outro medicamento é um pequeno produto químico sintético mil vezes mais poderoso que o resveratrol no que tange a ativar o sirtuin, e que pode ser administrado em dose muito menor. Os testes de segurança em seres humanos começaram há pouco, e até agora não se vê efeitos adversos.
A esperança é a de que ativar o sirtuin nas pessoas ajudaria a evitar doenças degenerativas trazidas pela idade, como o diabetes, problemas cardíacos, câncer e Mal de Alzheimer da mesma forma que a dieta de restrição calórica faz com os ratos de laboratório.
Não existe categoria específica na Food and Drug Administration (FDA, agência federal norte-americana que regulamenta alimentos e remédios) para remédios que promovam maior longevidade, e modo que se a empresa submeter o produto a aprovação, terá de propô-lo como forma de combater uma doença específica. Mas ainda assim foi a longevidade que motivou os pesquisadores, e é ela que torna o remédio potencialmente tão atraente.
O Dr. Christopher Westphal, presidente-executivo da Sirtris, disse, sobre o potencial dos remédios, que "acredito que, se estivermos certos, eles poderiam estender a longevidade em 5% a 10%". E acrescentou que seu objetivo era desenvolver remédios contra doenças específicas, com a extensão da vida surgindo "quase como um efeito colateral do remédio".
O impacto dos remédios da Sirtris, se eles obtiverem sucesso, poderia se estender além do setor de remédios. Guarente acredita que muita gente poderia começar a usá-los ao chegar à meia-idade, ainda que depois de terem tido filhos, porque eles podem afetar adversamente a fertilidade.
Os ratos de laboratório submetidos a tratamento com os remédios em geral se mantêm saudáveis até quase o final de suas vidas, e então simplesmente caem mortos. "Caso os remédios funcionem assim para os seres humanos, poderíamos pensar em uma extensão da porção saudável da vida, com a extensão da vida em si como efeito colateral", disse Guarente.
"Teríamos de mudar nossas idéias sobre idades de aposentadoria e sobre quando as pessoas deixariam de pagar impostos para sustentar a Previdência".
A GlaxoSmithKline poderia colocar o SRT501, sua fórmula de resveratrol, no mercado imediatamente, vendendo-o como composto natural e de nutrição, o que não requereria aprovação pela FDA. "Não tomamos a decisão ainda, mas essa é claramente uma opção", disse Vallance.
Fonte: The New York Times
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