Nacional Sexta, 19 de Março de 2010

Piauiense candidato a vereador é assassinado com tiro na cabeça

22/08/2008 - 07h29min

Tiago Pariz e João Campos revelam em reportagem para o Correio Braziliense que a Polícia Civil de Goiás trabalha com a hipótese de o assassinato do candidato a vereador de Águas Lindas José Venceslau (PP) ter motivação política. Ele foi morto após participar de um comício a poucos metros de sua casa no bairro Cidade do Entorno, local conhecido pela violência disseminada.

A polícia reconstituiu todo o crime e elaborou, com ajuda de uma testemunha ocular, o retrato falado do assassino. Presidente da Associação de Moradores do bairro, José Venceslau foi executado com um tiro na cabeça, segundo a polícia — testemunhas, porém, relataram dois disparos. O laudo da morte, que é preparado pelo Instituto Médico Legal (IML), deve sair em no máximo 15 dias.

Irmão Venceslau, como era conhecido na região, participou de um evento do candidato a prefeito Geraldo Messias (PP) e fez um rápido discurso por volta das 20h40 de ontem. No breve momento que teve atenção dos populares, defendeu melhoria da iluminação do bairro de ruas de terra e postes de luz sem lâmpadas.

Acompanhado pela mulher, Domingas Ricaldini Silva Costa, 44 anos, Venceslau permaneceu no evento para ouvir o restante dos correligionários. Por volta das 21h50, ele decidiu sair do meio da multidão e caminhou em direção a uma barraca de cachorro-quente. Antes de chegar ao destino, foi abordado por um homem que disparou um tiro a apenas dois dedos de distância da cabeça de Venceslau. O candidato foi executado a poucos metros de casa e morreu antes mesmo de chegar ao hospital.

“Nós não descartamos nenhuma hipótese, inclusive a de crime político”, disse a delegada titular do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops), Ana Cristina Hasegawa, que também preside o inquérito. A família de Venceslau acredita que o assassinato teve como motivação a atuação como líder comunitário. “Ele não tinha nenhum inimigo, era uma pessoa muito boa, ajudava todo mundo aqui no bairro”, disse a viúva. “Ele acreditava na política, ele queria fazer coisas melhores por esta cidade.”

Venceslau tentava se eleger pela segunda vez. Em 2004, teve apenas 145 votos. Pouco para a cadeira legislativa, mas suficiente para dar fôlego à iniciativa de criar a Associação de Moradores. Amigo de 12 anos do vizinho, o comerciante José Carlos de Morais Almeida disse que Venceslau incomodou muita gente como líder na comunidade. “Ele era uma pessoa de bem, ajudava todo mundo, mas deve ter incomodado alguém para ser assassinado dessa maneira covarde”, disse o comerciante conhecido como Carlitos, em meio a lágrimas.

Hipóteses
Além da tese da motivação eleitoral, a Polícia Civil de Goiás também trabalha com a hipótese de crime comum motivado por alguma rixa no bairro. Há uma versão também de que o candidato foi morto por engano. O alvo do assassino, na verdade, seria uma pessoa que havia brigado na mesma noite do crime. Essa última tese tem menos força no inquérito porque Venceslau foi executado à queima-roupa.

Com a ajuda de uma testemunha que comia um cachorro-quente e viu o crime, a polícia elaborou o retrato falado do criminoso e ontem mesmo saiu atrás de pessoas que poderiam identificá-lo. Agentes da Polícia Civil foram à residência de Venceslau, conversaram com correligionários e mostraram o retrato. Segundo a delegada Ana Cristina, ainda não houve uma identificação. Ela acredita que o suspeito será conhecido hoje após ouvir outras testemunhas-chave do assassinato. Venceslau será enterrado em sua cidade natal, Socorro do Piauí (PI), o pequeno município de menos de 5 mil habitantes onde o candidato morava com a mulher no começo dos anos 1990. Venceslau deixou quatro filhos.

Mapa da violência

Nove cidades do Entorno estão entre os 556 municípios mais violentos do país de acordo com mapa produzido pela Rede Informação Tecnológica Latino-americana (Ritla), Instituto Sangari e ministérios da Justiça e da Saúde.

Luziânia
Registrou 73 homicídios em 2006, uma média de 53,4 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Ocupa o 124º lugar no ranking da violência.

Cristalina
Aparece como o 189º município mais violento. Ao todo, foram 12 homicídios em 2006, uma média de 45,9 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

Valparaíso
Nesta cidade, foram registrados 48 homicídios em 2006. Isso significa uma média de 38,6 assassinatos para cada 100 mil habitantes.É a cidade de número 299 da lista.

Águas Lindas

Em 2006, houve 55 assassinatos. O número representa uma média de 38,6 mortes para cada 100 mil habitantes. No ranking da violência, a cidade ocupa o 300º lugar.

Cidade Ocidental

Na Cidade Ocidental, houve 27 homicídios em 2006, uma média de 36,7 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. O município está em 334º lugar na lista.

Formosa
Nesta cidade, foram registrados 27 homicídios em 2006. Isso quer dizer uma média de 35,33 mortes para cada 100 mil habitantes. A cidade é a 359º do ranking.

Novo Gama

No Novo Gama, ocorreram 16 assassinatos em 2006, o que representa 34,6 homicídios, em média, por grupo de 100 mil habitantes. Na lista, a cidade vem em 372º lugar.

Santo Antônio do Descoberto
Neste município, foram registrados 28 homicídios em 2006. Em média, foram 34,3 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes. A cidade ocupa o lugar de número 380.

Planaltina
Em Planaltina, houve dois homicídios em 2006. Isso significa, em média, 32,8 mortes a cada 100 mil habitantes. A cidade aparece em 425º lugar no mapa da violência.

De carona na tragédia
A campanha de Geraldo Messias (PP), candidato a prefeito de Águas Lindas (GO), tenta capitalizar politicamente a morte do correligionário José Venceslau da Costa, que concorria a uma vaga na Câmara de Vereadores.

Messias difunde a tese de que a bala que matou Venceslau era, na verdade, destinada a ele. O candidato a vereador foi morto a poucos metros de um comício comandado pelo candidato do PP. No evento público, o assassinato foi presenciado por pelo menos três testemunhas, segundo o Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops).

Para os policiais a versão é inverossímil porque Venceslau foi morto com um tiro à queima-roupa. “Estou muito assustado porque os ânimos dessa campanha estão se acirrando”, disse Messias, que relatou ter recebido diversas ameaças de morte por telefone. Apesar disso, ele ainda não oficializou a denúncia no Ciops. “Se eu fizer um boletim de ocorrência vão achar que estou tentando ganhar politicamente com essa situação e não é isso”, disse o candidato do PP.

A campanha de Geraldo Messias distribuiu na cidade um folheto convocando a participação dos populares na caminhada pela paz na cidade, realizada ontem. No texto de 12 parágrafos, há ilações sobre a possibilidade de a campanha ser o alvo do crime.

O PSol critica a estratégia. “Se alguém tentar tirar proveito dessa situação, ganhar em cima da perda da família, é uma burrice muito grande”, disse o candidato à prefeitura Luiz Alberto de Oliveira (PSol). Hildo do Candango, concorrente do PSB, faz eco ao adversário. Para ele a tese de crime eleitoral não se sustenta. (TP)

Fonte: Tiago Pariz e João Campos - Correio Braziliense


Palavras-chave: José Venceslau


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