Nacional Domingo, 05 de Julho de 2009

Fausto Wolff foi fiel a seus ideais até o fim

08/09/2008 - 08h03min

Por Miguel Arcanjo Prado

O jornalista Fausto Wolff não abria mão de suas idéias esquerdistas. E as mantinha sem nenhuma dúvida, mesmo após a queda do Muro de Berlim ou o fim da União Soviética. Os ventos da globalização que mudaram drasticamente o mundo não mudaram a cabeça do velho lobo comunista.

Jornalista Fausto Wolff (1940-2008) morreu na última sexta, no Rio
Wolff tinha a voracidade de defender seus pensamentos a cada escrito. Seu último espaço na grande imprensa foi a coluna que manteve até a última sexta-feira (5), no Caderno B do "Jornal do Brasil", dia em que morreu. Seu texto derradeiro era quase um manifesto:

"Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos [...] Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar", escreveu.

Conheci Fausto Wolff através da leitura do livro "Rio de Janeiro: Um Retrato - A Cidade Contada pelos Seus Habitantes", publicado pela Fundação Rio em 1990. Peguei a obra emprestada na biblioteca do sítio da amiga Teca Corujo, ex-secretária de "O Pasquim", em Caeté (MG). O livro era "herança do Jaguar", como Teca dizia, já que era parte do pagamento de seus salários atrasados por conta da falência do semanário.

Após ler o livro --uma compilação de crônicas cariocas colhidas por jovens repórteres em uma espécie de declaração de amor do jornalista gaúcho ao povo que o acolheu--, resolvi escrever para o autor, contando meu encanto por aquele trabalho primoroso.

Na época --era 2003--, Woff mantinha sua coluna no semanário "O Pasquim 21", ressuscitado pelos irmãos Zélio e Ziraldo Alves Pinto. Lá, publicou minha carta sem aviso prévio. Assim nasceu a amizade.

Se os novos ventos políticos e econômicos não balançaram o velho lobo, o mesmo não se pode dizer dos avanços tecnológicos. Fausto Wolff mantinha suas idéias também na internet, no sítio --como costumava dizer--"O Lobo". No espaço, olhava para o futuro e interagia com as novas gerações.

Sem compartilhar de grande parte de seu discurso, a admiração por Fausto Wolff sempre teve apenas uma única razão: a pureza e a verdade de seu acreditar em idéias para muitos ultrapassadas, mas que, para ele, eram dignas de defesa até a morte, como fez esse Dom Quixote do jornalismo brasileiro.


Palavras-chave: fausto Wolff


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