Cidades Domingo, 21 de Março de 2010

Dia da Consciência Negra - feriado em apenas um município piauiense

20/11/2008 - 11h12min

Fotos: José Bonifácio Bezerra

Hoje, 20 de Novembro, o Dia da Consciência Negra, é feriado em 261 municípios brasileiros, de um total de 5.561 municípios do país, de acordo com levantamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Celebrada em centenas de eventos pelo Brasil há 37 anos (desde 1971), a data lembra o dia em que foi assassinado, no ano de 1695, o líder Zumbi, do Quilombo dos Palmares, um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão, além da maior e mais importante comunidade de escrJosé avos, com população estimada em mais de 30 mil pessoas.

No Piauí, a informação que se tem é a de que apenas o município de Santa Filomena decretou feriado, e pela primeira vez na história. Tal fato ocorre porque a Câmara de Vereadores daquela cidade aprovou - por meio da Emenda Coletiva de Revisão e Alteração Nº 01/2008, da Lei Orgânica do Município, promulgada em 30 de junho de 2008 - a norma que dispõe sobre as atribuições do Município no que concerne a apoio e incentivo à valorização e à difusão das manifestações culturais, enfatizando o resgate, a preservação e a promoção da identidade e da memória local.

Diz o § 1º do artigo 124: “O dia 20 de Novembro, comemorado o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, será decretado Feriado Municipal, devendo a Prefeitura Municipal de Santa Filomena, com a participação da Câmara Municipal e colaboração de entidades da sociedade civil, promover atividades culturais, em homenagem a Zumbi dos Palmares, um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão”.

Com isso, Santa Filomena soma-se a outras cidades brasileiras que já haviam decretado feriado municipal em 20 de novembro, também chamado de Dia da Consciência Negra. O feriado, instituído por força de Lei Municipal, se justifica pelo fato de existir naquele município, a 25 quilômetros da cidade, mais precisamente na Fazenda Ponta da Serra, um cemitério de Escravos, localizado coincidentemente (ou não) ao lado do cemitério dos Brancos, porém separado por uma muralha de pedras fixadas com um estranho tipo de argamassa produzida à base de esterco de curral e cinza.

O trabalho escravo na Fazenda Ponta da Serra teria acontecido até fins do século XIX, por volta do ano 1880, na criação de gado e na exploração agrícola, principalmente no cultivo de cana-de-açúcar. No referido imóvel ainda há vestígios do trabalho escravo. Além do cemitério, existe uma cerca de pedras com mais de mil metros de extensão, obras estas construídas pelos próprios negros. O ‘cercado de pedras’ pertencia ao branco proprietário e dono de escravos Cícero Lustosa da Cunha, filho do coronel José Lustosa da Cunha (o Barão de Santa Filomena, fundador da cidade).

Não se tem notícia da origem da população negra que trabalhou como escrava em território filomenense, possivelmente de Angola, no Oeste da África. Do mesmo modo, não se sabe o número exato de escravos que viveram na região; no entanto, pela quantidade de sepulturas existentes no cemitério, acredita-se que deveriam ser mais ou menos 150 indivíduos.

Para o historiador Armando Lustosa Dourado da Silva, esses escravos eram descendentes de duas etnias: dos bantos, considerados o negro legítimo, de seios e nádegas avantajados, estatura baixa a mediana, cabelos encaracolados, lentos para o trabalho e menos desenvolvidos intelectualmente; e dos sudaneses, de cabelos amarelados e encaracolados, estatura mediana a alta, mais inteligentes e ágeis para as ocupações diárias.

Armando conta ainda que o Barão de Santa Filomena trousse esse contingente africano para prestar serviços domésticos e na agropecuária. “A maioria desses negros se estabeleceu na Fazenda Ponta da Serra, onde construíram mais de um quilômetro de cerca de pedra”, diz. Pela forma como eles trabalhavam, rolando pedras enormes da serra até a baixada, foram apelidados de tombas.

Com a libertação dos escravos, os tombas migraram para várias localidades do próprio município. Posteriormente, os tombas se casaram com um povo procedente da caatinga de Pernambuco e da Bahia, atualmente conhecidos na cidade pela alcunha de catingueiros, a maioria dos quais se concentra no Bairro São João. “Dessa mistura de raças, ficou uma certeza corrente: todo descendente dos tombas é catingueiro, mas nem todo catingueiro é tombas”, finaliza Armando Lustosa, que descende do Barão de Santa Filomena.

Devido à relevância sob o ponto de vista histórico, e por se tratar de um espaço de memória, é muito provável que o sítio arqueológico existente na Fazenda Ponta da Serra venha a se tornar patrimônio histórico municipal num futuro bem próximo, caso um eventual pedido de tombamento seja reconhecido pelo Departamento de Cultura.

Por essa razão, o assunto está se convertendo em tema de palestras e discussões entre a comunidade escolar, como parte das comemorações do dia da ‘Consciência Negra’, embora nada pague a dívida que a sociedade brasileira tem com os africanos que vieram para o Brasil.

Também nesta quinta-feira, 20, a Rádio Comunitária Rio Taquara FM estará com uma programação cultural, educativa e inclusiva, com reflexões e debates sobre a Consciência Negra, um legado da luta de Zumbi e Dandara em Palmares.

Colaboração: José Bonifácio Bezerra
Santa Filomena – Piauí
3569-1125



Palavras-chave: dia da consciência negra , consciencia negra


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