Reportagem de Lúcio Vaz para o Correio Braziliense deste domingo 11/01 mostra que o cruzamento das doações de campanha com a votação obtida pelos vereadores mostra o peso do poder econômico nas eleições municipais. Capitais do Centro-Oeste tiveram o maior custo. Confira:
O poder do dinheiro nas eleições para vereador pode ser medido pelo cruzamento das doações eleitorais com os votos obtidos pelos candidatos eleitos, o que resulta no preço unitário do voto. Em todas as capitais, as campanhas mais caras são justamente as que apresentam o maior gasto para atrair cada eleitor. As 20 maiores campanhas do país tiveram um custo médio de R$ 18,5 por voto, enquanto as 20 menores tiveram média de R$ 1,5. Isso mostra que os candidatos mais ricos são ruins de voto, mas acabam se elegendo pela força do poder econômico. Com uma arrecadação de R$ 17,5 milhões, as 20 maiores campanhas obtiveram 945 mil votos, enquanto as 20 menores conseguiram escassos R$ 126 mil e fizeram 83 mil votos.
Cofira os custos e a prestação de contas do seu vereador
O voto mais caro entre os vereadores eleitos nas capitais, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi o de Sahid Xerfan (PP), de Belém. Ele arrecadou R$ 447 mil e obteve apenas 3.238 votos, um custo unitário de R$ 138. Foi a 33º votação entre os 35 vereadores eleitos, mas garantiu a sua reeleição. Empresário, Xerfan já foi prefeito de Belém e duas vezes candidato a governador do estado. Em segundo lugar ficou Jean Oliveira (PSDB), eleito vereador em Porto Velho com apenas 19 anos. Ele é filho do ex-presidente da Assembleia Legislativa Carlão Oliveira. Jean gastou R$ 242 mil e fez 2.324 votos, uma média de R$ 103 a unidade.
A campanha de menor custo unitário foi a de Alecsandro de Souza Santos (PR), eleito vereador em Salvador. Com um caixa de apenas R$ 4,2 mil, ele alcançou 12.861 votos - a quarta maior votação entre os 41 eleitos. Média de R$ 0,33 por voto. Entre os que obtiveram os votos mais baratos está a ex-candidata a presidente da República Heloísa Helena (PSol). Com a recente exposição na campanha presidencial, ela foi eleita vereadora de Maceió com 29.516 votos e uma arrecadação de R$ 30 mil. Cada voto custou R$ 1.
A análise de cada uma das capitais mostra uma tendência marcante. Em todas elas, as campanhas mais caras têm sempre um custo unitário maior. Na medida em que o caixa de campanha é reduzido, cai também o preço do voto. Em São Paulo, por exemplo, as 10 maiores campanhas tiveram média de R$ 27 por voto, enquanto as 10 menores ficaram em R$ 5,2.
Regiões
Os votos mais caros foram obtidos no Centro-Oeste: R$ 19,46 a unidade. A região Norte também ficou acima da média, com destaque para Palmas, onde cada voto custou, em média, R$ 42,87.
Considerando as 20 maiores campanhas de voto mais caro, sete são da capital de Tocantins e quatro de Goiânia. Na média por região do país, os votos mais baratos foram os do Nordeste (R$ 9,03 a unidade). Também obtiveram média elevada as seguintes capitais: Goiânia (R$ 21,67), Cuiabá (R$ 20,89) e Porto Velho (R$ 20,40). Os votos mais baratos foram registrados em Salvador (R$ 6,86), Fortaleza (R$ 7) e Belém (R$ 7,77).
O PT deixou de ser o partido de campanhas e votos baratos. Agora no poder central do país, foi o que teve o voto mais caro entre os grandes partidos (R$ 15,25). Ficou atrás apenas do pequeno PR (média de R$ 16,46). O voto mais barato foi o do PSol (R$ 4,7). O custo médio do voto no país ficou em R$ 11,90.
Ex-senadora Heloísa Helena: Cada voto custou apenas R$ 1
Os vereadores de votos mais caros tiveram campanhas com perfil de candidatos a deputado estadual ou federal, seja pela arrecadação ou pelos gastos registrados. Jean Oliveira (PSDB), eleito em Porto Velho, arrecadou R$ 241 mil. Entre os seus maiores doadores estão as empreiteiras Calc Engenharia, que contribuiu com R$ 85 mil, e Anaconda, que ajudou com mais R$ 10,6 mil. O próprio vereador eleito, de apenas 19 anos, declarou uma autodoação de R$ 14 mil. Iram de Almeida Saraiva (PMDB), que teve a campanha e o voto mais caros de Goiânia, bancou 99% do custo da sua campanha. Foram R$ 493 mil dos R$ 496 mil declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A vereadora Heloísa Helena (PSol) teve uma ajuda extra para chegar à Câmara Municipal de Maceió. A metade do seu caixa de campanha (R$ 30 mil) resultou de contribuições do Diretório Nacional do partido. Ela investiu o dinheiro em propaganda impressa, ou seja, santinhos e cartazes. Ainda ajudou a eleger o vereador Ricardo Sérgio de Olivera (PSol), que fez apenas 453 votos, mas ganhou uma vaga no rastro dos 29.516 votos obtidos pela ex-candidata do partido a presidente da República. Cada voto de Ricardo custou R$ 23.
Comitês
Em Palmas, o candidato mais votado do PT, Milton Neris de Santana, obteve o terceiro voto mais caro nas capitais (custo unitário de R$ 81). A sua campanha custou R$ 212 mil. Desse total, R$ 45 mil resultaram de doações do Comitê Financeiro Municipal Único do partido. Outros R$ 49 mil foram doados pela empresa Movesto Comércio de Móveis. O comitê financeiro do partido fez doações no valor total de R$ 2,4 milhões aos seus candidatos.
Na declaração feita ao TSE, o vereador reeleito Sahid Xerfan (PP) informou que recebeu R$ 395 mil da empresa Delta Publicidade. Na especificação dos gastos, esses recursos são descritos como “baixa de recursos estimáveis em dinheiro” provenientes dessa empresa. Xerfan recebeu mais R$ 9 mil da RH Graph, R$ 12 mil do Supermercado Cidade e R$ 15 mil do Liberty Empreendimentos e Participações.
A declaração de Iram Saraiva é uma das mais especificadas entre as grandes campanhas. O vereador é filho do ex-senador e ex-ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Iram Saraiva. Ele declarou ter gasto R$ 71 mil com impressos, R$ 57 mil com combustíveis, R$ 16,9 mil com a produção de programas de rádio e televisão, R$ 11,2 mil com ligações telefônicas e R$ 15,4 mil com equipamento de som.
Fonte: Lúcio Vaz / Correio Braziliense
Palavras-chave: eleicoes 2008 , vereadores
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