Os olhos do jovem Vinícius Barbosa, 12 anos, não paravam um só momento. A cerca de 400 metros de sua casa de taipa, ele observava os pilotos de moto do rali Piocerá cortarem as poças de lama com uma rajada de velocidade. Ao lado, seus amigos, com idades semelhantes, sentados na areia quente, saboreavam cada momento com a mesma pitada de fascínio: a intrusão bem-vinda da civilização mais moderna – ou “povo de fora”, como eles costumam falar.
“Esse daí tá com raiva”, avaliou Vinícius, para um dos competidores que atacou com força uma das curvas fechadas. “Esse daí é bom mesmo. Ó só prali, ó (sic)”, observou, enquanto outro dos participantes empinava o veículo para sair bem na foto, em uma trilha realizada no interior do Piauí.
Os comentários inocentes comprovam o ar de descoberta dos garotos, acostumados a passar o dia fazendo coisas bem mais simples, como brincar de pega-pega em meio às carnaubeiras – vegetação local – e correr atrás de porcos e cabras. “A gente faz isso aí. Passa o dia em casa, estuda. Mas quando tem moto é bom”, responde Vinícius, lacônico de timidez.
Um de seus amigos, conhecido apenas por Roberto – pois havia esquecido o sobrenome – envergava uma camisa comum a todos os brasileiros: a 11 da seleção brasileira. Perguntado se sabia quem era Romário, ele apenas balançou a cabeça negativamente. No entanto, conhecia cada atalho de seu território e as histórias mais interessantes – boa parte deles vivenciada pelo próprio.
“Teve uma vez que o homem passou direto ali (apontou para um local com pedras) e saiu cheio de sangue. Mais na frente também tem um buraco que eles têm de ir pelo lado. Depois vou pra lá porque dá pra ver mais de perto”, revelou Roberto, 10 anos recém completados. Já seu Adolfo, um dos mais velhos da comunidade, diz que não se incomoda com a intrusão. “É tudo assim mesmo, um bando de doidos”, avalia, com a experiência de 63 anos vivendo uma vida tranqüila, em pleno contato com a natureza.
Um dos pilotos passou raspando a mais de 50 km/h do lado de sua carroça, puxada por um jegue. “Tenho medo não. Esse é velho de guerra, mas eu confio mais que as motos”, disse, sobre o animal, para depois completar. “Não troco essa vida por nada. São eles lá e eu aqui”, finalizou, antes de voltar ao trabalho e à sua realidade.
Fonte: Jornal do Commércio
Palavras-chave: rally piocera , piocera
Nenhum comentário